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Cadernos de Saúde Pública

Papers (8)

Tratamento ambulatorial do câncer do colo do útero em tempo oportuno: a influência da região de residência de mulheres no Estado de Minas Gerais, Brasil

O objetivo deste estudo é investigar se há associação entre as Regiões Ampliadas de Saúde (RAS) de residência de Minas Gerais, Brasil, e o intervalo entre diagnóstico e início de tratamento de mulheres que realizaram tratamento ambulatorial (quimioterapia ou radioterapia) para câncer do colo do útero pelo Sistema Único de Saúde (SUS), entre 2001 e 2015. Trata-se de um estudo transversal, recorte de uma coorte, com 8.857 mulheres. Para avaliar a associação da RAS de residência e o intervalo entre diagnóstico e início de tratamento (em dias), foram utilizados modelos de regressão binomial negativa, considerando nível de significância de 5%. Os modelos foram construídos usando blocos de covariáveis sociodemográficas, clínicas e relacionadas ao tratamento. Foi determinado que a RAS de residência das mulheres está associada ao intervalo entre o diagnóstico e o início de tratamento. A RAS Norte foi a região do estado onde a média de tempo para iniciar o tratamento foi menor, e não residir nessa RAS aumenta a média de tempo para iniciar o tratamento entre 24% e 93% em comparação com outras RAS do estado. Fica evidente a disparidade no intervalo entre diagnóstico e início de tratamento entre as regiões do Estado de Minas Gerais. A disponibilidade de serviços habilitados para o tratamento do câncer nas RAS não reflete necessariamente em maior agilidade para início de tratamento. Compreender os fluxos das Redes de Atenção Oncológica e suas diferenças regionais é fundamental para aprimorar políticas públicas que garantam o cumprimento de leis vigentes, como a Lei nº 12.732/2012, que preconiza o início do tratamento de pacientes com câncer em até 60 dias após o diagnóstico.

Rastreamento do câncer do colo do útero no Brasil: análise da cobertura a partir do Sistema de Informação do Câncer

O objetivo deste estudo foi analisar a cobertura de rastreamento do câncer do colo do útero no Brasil e Unidades da Federação (UF), utilizando dados secundários do Sistema de Informação do Câncer (SISCAN), comparar com o indicador de razão de exames na população feminina, utilizado classicamente como proxy da cobertura e estimar a cobertura possível, caso as diretrizes nacionais preconizadas pelo Ministério da Saúde fossem seguidas adequadamente pelos profissionais de saúde. Foram selecionados exames citopatológicos realizados entre 2021 e 2023, em mulheres até 64 anos de idade, registrados no SISCAN e no Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA/SUS). Indicadores de cobertura e razão foram calculados por UF de residência. Estimou-se a cobertura possível de rastreamento somando todos os exames realizados no período em mulheres até 64 anos e dividindo-se pela população-alvo (25 a 64 anos). A cobertura de rastreamento estimada para o Brasil foi de 35,6%, inferior aos valores do indicador de razão (47,4 e 47,8 por 100 mulheres pelo SISCAN e SIA/SUS, respectivamente). Verificou-se que ao direcionar os exames realizados para faixa etária e periodicidade adequadas, a cobertura poderia atingir 53,9% no Brasil e superar 70% no Espírito Santo, Paraná e Santa Catarina. Concluiu-se que o indicador de razão superestima a cobertura em aproximadamente 35% e que as coberturas de rastreamento estão muito abaixo dos 70% preconizados pela Organização Mundial da Saúde. Entretanto, a sensibilização dos profissionais quanto às diretrizes do Ministério da Saúde podem modificar esse cenário, otimizando recursos e gerando impacto na incidência e mortalidade por câncer do colo do útero.

Estrategia educativa para la prevención del cáncer de cuello uterino en indígenas: una experiencia de investigación-acción participativa

El objetivo fue evaluar los cambios en los conocimientos, actitudes y prácticas sobre el cáncer de cuello uterino después de una intervención educativa en el marco de investigación-acción participativa con pueblos indígenas del Resguardo El Paujil, Guainía, Colombia. Se realizó un diagnóstico con enfoque intercultural y participativo. Posteriormente, se diseñó e implementó la estrategia educativa. La investigación en todas sus etapas tuvo participación de lideresas de la comunidad. La estrategia se evaluó mediante una encuesta sobre conocimientos, actitudes y prácticas sobre el cáncer de cuello uterino. Los efectos se determinaron al comparar los cuestionarios antes y después de la intervención con la prueba de Mann-Whitney y el chi-cuadrado. Participaron en la estrategia educativa 957 mujeres. Hubo un aumento significativo en el nivel de conocimientos sobre el cáncer de cuello uterino antes (8,5%) y después (12,5%) de la intervención (p < 0,001) y en la práctica de la citología vaginal (64,4% y 73,9%; p = 0,0467). Sin embargo, el escaso conocimiento que tenían sobre la relación del virus del papiloma humano con el cáncer de cuello uterino y sobre factores de riesgo como la multiparidad o el inicio temprano de relaciones sexuales no cambió con la intervención. Se encontró un aumento significativo en los conocimientos de las mujeres de bajo nivel educativo después de la intervención. La educación en salud con enfoque intercultural en el marco de la investigación-acción participativa es efectiva para mejorar los conocimientos y prácticas para la prevención del cáncer de cuello uterino en comunidades vulnerables. Sin embargo, para obtener mejores resultados es importante que los proyectos sean de mayor duración para construir relaciones de confianza con las comunidades.

Fatores associados ao início do tratamento especializado em tempo inoportuno após diagnóstico do câncer do colo do útero no Estado da Bahia, Brasil

Este estudo teve o objetivo de analisar os fatores associados ao tratamento especializado em tempo inoportuno após diagnóstico do câncer do colo do útero no Estado da Bahia, Brasil. Trata-se de um estudo de base hospitalar, de corte transversal, realizado com mulheres tratadas em unidades credenciadas ao sistema de Registro Hospitalar de Câncer (RHC) do Estado da Bahia, no período de 2008 a 2017. Foi realizada análise descritiva e regressão logística, construída na modelagem stepwise backward, para estimar as razões de prevalência (RP) bruta e ajustada, sendo consideradas estatisticamente significantes aquelas com o valor de p ≤ 0,05 pelo teste qui-quadrado de Pearson. Foram analisados 9.184 casos, destes, 65% tiveram tratamento em tempo inoportuno (tempo transcorrido entre o diagnóstico e o primeiro tratamento > 60 dias). A prevalência de tratamento em tempo inoportuno apresentou valores mais elevados entre mulheres com 65 anos ou mais (RP = 1,30; IC95%: 1,21-1,39), nenhuma escolaridade (RP = 1,24; IC95%: 1,15-1,33) e estadiamento avançado (RP = 1,17; IC95%: 1,13-1,21). Na maioria dos casos analisados, houve tratamento em tempo inoportuno, com maior prevalência entre as mulheres com mais idade, menor escolaridade e estadiamento clínico do tumor avançado, evidenciando a necessidade de ampliação do acesso aos serviços de tratamento oncológico no Estado da Bahia, em especial para estes grupos que apresentaram pior situação.

School-based HPV vaccination program implementation in municipalities of the São Paulo State, Brazil, from 2015 to 2018

4vHPV vaccine was introduced into the Brazilian National Immunization Program in 2014, with vaccination at schools and healthcare facilities. Data on HPV vaccination program implementation in Brazil are scarce. This cross-sectional, exploratory study aimed to get a better understanding of the HPV vaccination actions and barriers to implement the school-based vaccination in municipalities of the São Paulo State, from 2015 to 2018, from the point of view of people who were responsible for conducting the actions. In November 2018, a questionnaire was sent to the state’s regional surveillance groups to be answered by people responsible for the vaccination actions in the municipalities. The questionnaire consisted of six open questions on HPV vaccination actions taken by the municipalities, from 2015 to 2018, including whether the school-based vaccination had been implemented or not, a program description, the barriers to implement it, how the program was evaluated, and the municipality plans regarding HPV vaccination program in the following years. 233 (36.1%) of the 645 municipalities answered the questionnaire. Most of them implemented both education or vaccination actions at schools. Reported barriers were health human resources shortage, education staff concerns on vaccination within schools, and students’ and parents’ unfamiliarity with HPV vaccination. Raising awareness on HPV infection and prevention among students and parents, ensuring appropriate human resources, and building a partnership between the health and education sectors are critical to have a successful school-based program.

Tendência e desigualdades no rastreamento autorrelatado do câncer de colo de útero nas capitais brasileiras entre 2011 e 2020

Resumo: Este estudo teve como objetivo verificar a tendência temporal e desigualdades no rastreamento autorrelatado do câncer de colo de útero nas capitais brasileiras entre os anos de 2011 e 2020. Estudo de tendência com dados da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2011 a 2020. O desfecho foi a prevalência de realização de exame citopatológico nos últimos três anos. Para estimar as desigualdades, foram utilizados os índices de desigualdade de inclinação (slope index of inequality - SII) e de concentração (concentration index - CIX). Observou-se tendência crescente do desfecho no país no período pesquisado e queda na maioria das regiões, capitais e em todos os grupos de acordo com escolaridade. Houve uma queda da cobertura na maioria das regiões do Brasil. Destaca-se que o SII apresentou seus piores resultados em 2011 e 2012, alcançando 15,8p.p. (IC95%: 14,1; 17,6) e 15,0p.p. (IC95%: 13,1; 16,9), respectivamente, entre as mulheres com 12 anos ou mais de estudo. Houve queda na cobertura da realização do exame preventivo de câncer de colo de útero na maioria das regiões e capitais brasileiras entre os anos de 2011 e 2020. No período antes e durante a pandemia, houve redução do desfecho no país, nas regiões Sul e Sudeste, sugerindo que a pandemia de COVID-19 acarretou desigualdades geográficas na cobertura desse exame no país.

Avaliação das ações de controle do câncer de colo do útero no Brasil e regiões a partir dos dados registrados no Sistema Único de Saúde

Este estudo teve como objetivo analisar a realização de exames de rastreamento e diagnóstico para o câncer de colo do útero entre mulheres de 25 e 64 anos, bem como o atraso para o início do tratamento no Brasil e suas regiões geográficas no período de 2013 a 2020. As informações sobre os procedimentos e as estimativas populacionais foram obtidas nos sistemas de informações do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Foram calculados indicadores de cobertura do exame de Papanicolau, os percentuais de exames citopatológicos e histopatológicos alterados, e o percentual de mulheres com diagnóstico de câncer do colo do útero tratadas com mais de 60 dias. Houve grande variação na cobertura do exame de Papanicolau entre as regiões brasileiras com tendência de declínio a partir de 2013, agudizada de 2019 para 2020. O número registrado de exames citopatológicos alterados foi 40% inferior ao estimado e a diferença entre o número registrado de diagnósticos de câncer e o estimado menor que 50%. O percentual das mulheres com diagnóstico de câncer invasivo do colo do útero que iniciaram o tratamento após 60 dias variou entre 50% na Região Sul a 70% na Região Norte, com diminuição a partir de 2018. Em 2020, houve retração do número de exames de rastreamento e de seguimento com diminuição da proporção de mulheres com atraso para o início do tratamento nas regiões Norte, Sudeste e Sul. A queda na cobertura do rastreamento e o seguimento inadequado de mulheres com resultados alterados indicam a necessidade de aprimorar as estratégias de detecção precoce da doença e estabelecer mecanismos de avaliação e monitoramento constante das ações.

Social inequalities in the incidence, mortality, and survival of neoplasms in women from a municipality in Southeastern Brazil

This study aims to analyze inequalities in the incidence, mortality, and survival of the main types of cancer in women according to the Social Vulnerability Index (SVI). The study was conducted in Campinas, São Paulo State, Brazil, from 2010 to 2014, and used data from the Population-based Cancer Registry and the Mortality Information System. Incidence and mortality rates standardized by age and 5-year survival estimates were calculated according to the social vulnerability strata (SVS), based on the São Paulo Social Vulnerability Index. Three SVS were delimited, with SVS1 being the lowest level of vulnerability and SVS3 being the highest. Rate ratios and the concentration index were calculated. The significance level was 5%. Women in SVS1 had a higher risk of breast cancer (0.46; 95%CI: 0.41; 0.51), colorectal cancer (0.56; 95%CI: 0.47; 0.68), and thyroid cancer (0.32; 95%CI: 0.26; 0.40), whereas women from SVS3 had a higher risk of cervical cancer (2.32; 95%CI: 1.63; 3.29). Women from SVS1 had higher mortality rates for breast (0.69; 95%CI: 0.53; 0.88) and colorectal cancer (0.69; 95%CI: 0.59; 0.80) and women from SVS3 had higher rates for cervical (2.35; 95%CI: 1.57; 3.52) and stomach cancer (1.43; 95%CI: 1.06; 1.91). Women of highest social vulnerability had lower survival rates for all types of cancer. The observed inequalities differed according to the location of the cancer and the analyzed indicator. Inequalities between incidence, mortality, and survival tend to revert and the latter is always unfavorable to the segment of highest vulnerability, indicating the existence of inequality in access to early diagnosis and timely treatment.

Publisher

FapUNIFESP (SciELO)

ISSN

1678-4464